20 - ANEXO - Carta de Lourenço Diaféria


Prezada Nisia

Tenho vários conceitos de crônica. Vários conceitos, porque a crônica pode ser um quase-conto, uma quase-dissertação, um quase-poema, uma quase-reportagem, uma crônica e até, se me permite, uma quase-crônica. Existem vários tipos de crônica. A memorialística, a meditativa, a humorística e assim por aí vai.

Mais de um autor já tentou - alguns conseguiram chegar perto - definir a crônica com precisão. Passo-lhe um definição do Dicionário de Comunicação, de Carlos Alberto Rabaça e Gustavo Barbosa: crônica é um texto jornalístico, livre e pessoal, criado a partir de fatos da atualidade. Pode ser crônica política, esportiva, artística, literária, de amenidades. Eu, pessoalmente, entendo a crônica como um texto aberto e que se completa com a imaginação do leitor. A crônica não é um fato seco, um episódio escrito. A crônica exige o pacto do leitor. O leitor completa a crônica. A crônica é o episódio embalado pela imaginação. Do cronista e do leitor.

Não digo que a crônica seja um gênero unicamente jornalístico. Mas ela está tão ligada ao jornal - o jornal é seu território - que muitas vezes se confunde com o próprio jornalismo. Mas a crônica é um derivante do jornalismo. A crônica é como a estrada vicinal do jornalismo. Ela dá voltas, faz rodeios, circunvaga, flana, adeja, sobre os acontecimentos. Os acontecimentos que aconteceram, que podia ter acontecido e que jamais aconteceram. A crônica é a ficção jornalística do cotidiano.

Depende do cronista e as fontes do cronistas podem ser o mar, a família, uma dor de dente, um filho, uma amiga, um resto de amor, uma montanha, um pássaro, um avião, um pedaço de telha, uma rua, as esquinas, o luar, um cadáver abandonado no asfalto enquanto o camburão do Instituto Médico legal não chega. Uma crônica como a definiu o cronista Artur da Távola, são os sustos do dia-a-dia.

O cronista trabalha as informações de acordo com seu modo de viver e de olhar o mundo. Sem dúvida, um dos segredos da crônica é seu gancho inicial. O gancho que prende o leitor. O Luís Fernando Veríssimo, filho do Érico Veríssimo, escreveu que qualquer assunto é assunto de crônica. Mas é importante achar a embocadura. o tratamento do assunto. No meu caso, que nem sei se serve de exemplo, as informações - melhor diria, as sensações, as emoções - são tratadas em banho-maria. Remoendo. Muitas vezes, pensando as informações durante horas. Por vezes, a informação é recolhida dias antes, meses antes. E ficam curtidas, maceradas. De repente, elas tomam corpo. Se solidificam. Deixam de ser fumaças na cabeça. Mas não é um trabalho rigoroso, sistemático, disciplinado. Torna-se um hábito. As informações dia-a-dia vão para uma gaveta imaginária, um cofre imaginário, um cantinho da memória. Súbito, a informação se apresenta, como inspiração. Ou proposta de texto.

A linguagem varia de acordo com o mês, o dia, a hora, a estação do ano, o fígado, o humor, a disposição, o céu e o funcionamento da máquina de escrever (para quem escreve sem computador). Acredito que a crônica necessita, sem, de uma linguagem específica. Mais direta com o leitor. Mais sensível. Mais coloquial. Se se aplicar 'a crônica a técnica jornalística - mas qual técnica? - a crônica poderá terminar sendo uma reportagenzinha, um comentariozinho, uma noticiazinha, um editorialzinho. A linguagem da crônica é a linguagem cordial - no sentido de cor, coração - de quem se abre para o público. Costumo dizer que, com o tempo, a crônica se transforma no strip tease do cronista.

Não sei. Nunca tive a preocupação de descobrir um estilo. Meu estilo é fotografar a rua, a cidade, a vida, como um lambe-lambe de praça pública. Eu me preocupo com as coisas e as pessoas sem importância. meu assunto são as antimanchetes.

Eu penso que a importância da crônica num jornal diário ~e dar leitura amena ao leitor. è fazê-lo descobrir, sentir na própria pele, que a vida não é apenas grandes fatos, grandes acontecimentos, grandes títulos de primeira página. Uma viagem de ônibus, bairro a bairro, pode não ser notícia para ninguém. Mas é assunto de crônica. Quem já escorregou numa casca de banana, no meio da rua, mesmo sem ter fraturada nenhum osso, carrega a sensação por horas e até dias. A crônica pega a emoção do tombo sem fraturas. Pega a emoção banal da viagem de ônibus que vai da rua Tal 'a rua Tal e chega ao ponto final com as pessoas, os passageiros, vivos. A importância da crônica num jornal diário é, também, o fato simplório de que a crônica vende jornais. A crônica tem leitores. No dia em que a crônica não vender jornais, não tiver leitores, o cronista terá de vender batas na feira-livre do bairro.

Como ler uma crônica? ora, do jeito que a pessoa gosta de ler. De manhã, no café da manhã. Depois do almoço, se é que a pessoa almoçou. De noitinha, quando chega em casa depois do trabalho. A crônica é um texto ágil, rápido, lépido, fugaz. Um texto muito curto. Sua leitura não toma tempo de ninguém. Essa é uma das características da crônica: texto curto, leve, ágil. Sem muita enrolação. Mas um texto que toque as pessoas. Como um gesto de mágica. Nada mais que isso. O leitor lê a crônica como queira ler. Mas tem que ler tudo, do começo ao fim. Não é como um romance, que pode ser lido aos pedaços. Não é como um biografia. A crônica não tem capítulos. è um zás.

Acho que já expliquei, de certa forma, quem é o cronista. O cronista é o observador das coisas minúsculas, e o observador das coisas imensas - enormes - que ninguém vê. Nelson Rodrigues, com fina ironia, costumava escrever que o carioca não enxerga o Pão de Açúcar. O morro está lá, na cara, e o carioca não o vê. Tão comum, isso. Certa ocasião mataram um assaltante aqui perto, no bairro. De manhã cedo, o moço estava lá, estirado na calçada. As pessoas olhavam de longe, curiosas. Dois policiais militares montavam guarda ao defunto. O cadáver estava coberto com jornais. O defunto, o cadáver, era assunto para a seção de polícia dos jornais. Mas os jornais que o cobriam, as notícias estampadas no jornais que o cobriam, seriam um tema para crônica. Do cadáver, sob os jornais, aparecia apenas a ponta do pé, cor de cera. Um único pé. Imóvel. Hirto. Pacificado pela morte definitiva. O pé do assaltante morto é que era a crônica.

Não sei se deu para entender. Tudo bem. Se você quiser, há um livro editado recentemente pela editora Scipione, de autoria da Flora Bender e da Ilka Laurito. Chama-se Crônica - história, teoria e prática. Procure esse livro. Vale a pena.

Abração e bom trabalho
Cordialmente
Lourenço Diaféria
1994

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